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Tether usa resgate de US$ 127 mi para concorrer com Circle na Solana

A Tether injetou US$ 127,5 milhões (cerca de R$ 765 milhões, com a cotação atual de R$ 6,00 por dólar) para resgatar o Drift Protocol, uma corretora descentralizada na rede Solana. Isso aconteceu após um grande ataque cibernético em abril de 2026, que resultou em um prejuízo de US$ 286 milhões (R$ 1,72 bilhão). Os responsáveis, supostamente hackers da Coreia do Norte, minaram os sistemas da corretora através de engenharia social. A Tether estabeleceu como condição para o resgate que a Drift abandonasse o USDC, da Circle, e migrasse suas operações para o USDT. Essa mudança pode impactar diretamente os US$ 8,1 bilhões (R$ 48,6 bilhões) de USDC em circulação na rede Solana, onde esse ativo ainda responde por mais da metade do total de stablecoins, estimadas em US$ 15,5 bilhões (R$ 93 bilhões).

Essa situação gerou uma pergunta pertinente nas mesas de operações: será que esse resgate representa uma verdadeira mudança estrutural nas stablecoins da Solana, colocando o USDT como o novo padrão para transações e finanças descentralizadas (DeFi)? Ou seria apenas uma jogada tática para ganhar a confiança temporária de um único protocolo, sem afetar a vantagem que a Circle conquistou junto a gigantes como Visa e PayPal?

Contexto do mercado

Nos últimos dois anos, a Solana se destacou ao se tornar uma das principais plataformas para transações de stablecoins. Em fevereiro de 2026, foi registrado um volume de transações de US$ 650 bilhões (R$ 3,9 trilhões) em um só mês — um número que ilustra bem a batalha entre a Tether e a Circle pela liderança nesse segmento. Enquanto a Circle manteve a soberania sobre 80% das stablecoins da rede, essa participação caiu para 55%. Em contrapartida, o USDT viu sua presença crescer de forma significativa, saindo de quase zero para 21%.

Esse movimento não aconteceu à toa. A luta entre as duas empresas se intensifica em um cenário global onde o mercado de stablecoins já alcançou US$ 320 bilhões. Apesar das pressões regulatórias que a Tether enfrenta, ela ainda mantém uma posição forte no mercado devido à sua profundidade. O ataque ao Drift Protocol desequilibrou as forças entre as duas empresas. Enquanto a Circle defendia publicamente sua posição de não congelar ativos sem ordem judicial, Tether entrou em ação rapidamente, oferecendo um resgate significativo e exigindo mudanças. Como essas posturas vão influenciar o futuro da competição entre elas?

Além disso, com a aprovação do GENIUS Act nos EUA, que exige maior transparência sobre reservas, a Tether tomou a iniciativa de contratar a KPMG para uma auditoria de suas reservas, que somam US$ 185 bilhões (R$ 1,11 trilhão). A mudança de cenário regulatório e a busca por uma nova avaliação no mercado, prevista em US$ 500 bilhões (R$ 3 trilhões), posicionam a Tether para um crescimento significativo.

Em termos simples, imagine

Imagine que o Pix funcione com dois bancos privados que competem entre si. Um deles seria mais tradicional, com parcerias estabelecidas com grandes varejistas, enquanto o outro, mais ágil, não possui a mesma conformidade regulatória, mas promete agir rapidamente em situações de emergência. Agora, suponha que esse banco mais ágil ofereça um grande aporte financeiro para ajudar uma corretora após um grande rombo. Em troca, ele exige que todos os clientes da corretora passem a utilizar seu sistema.

Isso é parecido com o que ocorreu com a Tether e o Drift Protocol na Solana. Aqui, o USDC seria o equivalante a um Pix mais tradicional, enquanto o USDT seria o Pix do banco que não hesita em atuar sem esperar por aprovação legal. A Tether demonstrou rapidez ao congelar a ponte da Solana 29 minutos após o ataque, uma agilidade que a Circle não conseguiu replicar. A diferença crucial é que, enquanto no Brasil o Pix é regulado, na Solana, a competição é feita diretamente entre as empresas, tornando o ambiente bem mais instável.

O que os dados revelam?

  • O Cheque Estratégico: A Tether, além dos US$ 127,5 milhões, contou com outros US$ 20 milhões de parceiros, formando um fundo de recuperação de US$ 295 milhões (R$ 1,77 bilhão) para ressarcir as vítimas do ataque. Essa abordagem não é apenas doação, mas uma operação de crédito vinculada à receita futura do Drift.

  • O Rombo Original: O ataque em 1º de abril drenou os recursos da corretora. Mais de US$ 60 milhões (R$ 360 milhões) em USDC foram retirados antes que qualquer bloqueio fosse feito.

  • O Termômetro da Dominância: Atualmente, o USDC representa US$ 8,1 bilhões em Solana, mas sua participação caiu de 80% para 55% nos últimos dois anos, enquanto o USDT subiu para 21%.

  • A Velocidade do Escudo: A rápida resposta da Tether no evento do ataque mostra sua capacidade de agir de maneira dinâmica. Eles colaboram com diversas autoridades de segurança, tendo recuperado bilhões em ativos digitais associados a crimes.

  • O Volume que Justifica Tudo: O volume de US$ 650 bilhões em transações mostra que mesmo uma pequena parte do mercado pode gerar lucros significativos. Capturar a Drift significa que a Tether se posiciona bem antes que o mercado se firme.

  • A Avaliação Astronômica: A Tether está buscando um aporte de US$ 20 bilhões a uma avaliação de US$ 500 bilhões. O resgate da Drift poderia ser uma estratégia para atrair investidores institucionais.

Juntos, esses dados indicam que a Tether não está só reagindo a crises. Ela busca mudar o cenário das stablecoins e estabelecer uma infraestrutura mais forte na Solana.

O que muda na estrutura do mercado?

Efeito de primeira ordem: A mudança da Drift de USDC para USDT significa que os 128 mil usuários e 35 parceiros migraram junto, gerando demanda por USDT na Solana.

Efeito de segunda ordem: A percepção de que a Tether pode oferecer um “mecanismo de resgate” torna o USDT mais atraente para outros protocolos. Isso transforma a escolha de stablecoin numa decisão de gerenciamento de risco, muito mais do que técnica.

Efeito de terceira ordem: O timing do resgate coincide com a implementação do GENIUS Act. Se a Tether conseguir garantir a auditoria e operar como um “banco de última instância do DeFi”, pode eliminar a vantagem regulatória que a Circle possui.

Quais os sinais de mercado que importam agora?

  • O Termômetro do TVL: Fiquem atentos ao TVL da Drift. Se recuperar mais de 70% nos primeiros 30 dias após o relançamento, será um sinal positivo de que o mercado aceitou a migração.

  • O Piso de 52%: Acompanhem a participação do USDC na Solana. Se cair abaixo de 50% em três meses, a estrutura se alterou.

  • O Velocímetro do USDT0: Um aumento consistente nas transações do protocolo USDT0 será um bom indicativo de adoção.

  • O Sinal da KPMG: A conclusão da auditoria pela KPMG será um indicador crítico para investidores que priorizam compliance.

  • O Balanço dos Parceiros Institucionais: Um anúncio de parcerias do USDT com entidades como Visa ou PayPal pode mudar o jogo.

Como isso afeta o investidor brasileiro?

Efeito BRL: A batalha entre Tether e Circle impacta diretamente o risco e o custo de liquidez para investidores brasileiros. Compara-se atualmente os valores de negociação do USDT e do USDC, onde o primeiro tende a oferecer custos menores em troca de maior flexibilidade.

Acesso prático: O USDT está disponível nas principais plataformas do Brasil, como Mercado Bitcoin e Binance Brasil. Para participar no DeFi da Solana, você vai precisar do formato SPL do USDT ou USDC.

Atenção fiscal: As stablecoins são consideradas ativos e, se houver ganho de capital, devendo ser informadas na Receita Federal. Sempre consulte um contador caso vá fazer transações significativas.

Riscos e o que observar

  • Risco de Contraparte Concentrada: Um evento que impacte a Tether poderia gerar um depeg significativo na Solana. Fiquem de olho em comunicados da KPMG e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

  • Risco de Smart Contract Pós-Migração: A transição para o USDT requer novos contratos. Vulnerabilidades podem surgir ao longo do caminho.

  • Risco de Fuga de Parceiros Institucionais: Se a Tether afastar parceiros como Visa ou PayPal, isso poderá diminuir a liquidez do ecossistema.

  • Risco Regulatório Cruzado: Mudanças na legislação americana podem afetar a competitividade da Tether.

  • Risco de Narrativa Reversa: A percepção de segurança poderia mudar rapidamente em caso de novos ataques.

O cenário final

O que se sabe é que a Tether realmente se posicionou financeiramente em um evento crítico. Agora, resta ver se essa abordagem será replicada em larga escala e se outros protocolos vão seguir o exemplo da Drift ou se a Circle vai conseguir se restabelecer com uma resposta própria. O tempo dirá se o USDT se tornará a preferência nas DeFi ou se o USDC manterá sua vantagem institucional no mercado.

Rafael Cockell

Administrador, com pós-graduação em Marketing Digital. Cerca de 4 anos de experiência com redação de conteúdos para web.

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